Mistral libera os pesos do Large 4, IA de 1 trilhão de parâmetros
A empresa francesa abriu o modelo que apresenta como forte em cibersegurança, mas guarda uma versão especializada só para parceiros verificados. Os números de desempenho são alegações da Mistral, sem teste independente.

A Mistral AI liberou na quinta-feira (29) os pesos do Mistral Large 4, modelo apelidado pela empresa de "Le Chonk". Com isso, qualquer pessoa pode baixar o modelo e rodá-lo na própria infraestrutura. A empresa francesa o apresenta como uma ferramenta de cibersegurança para empresas e governos. Ao mesmo tempo, porém, mantém fechada uma versão especializada em ataque e defesa.
O modelo foi mostrado em prévia no dia 6 de outubro. Naquela ocasião, a Mistral prometeu soltar os pesos até o fim do mês e cumpriu o prazo. Os números de desempenho abaixo são alegações da empresa, sem teste independente.
O que foi liberado
Segundo a página de lançamento de 6 de outubro, o Large 4 tem 1 trilhão de parâmetros no total, dos quais 52 bilhões ativos. É um modelo do tipo mistura de especialistas, com entrada multimodal. A empresa diz ainda que ele foi treinado do zero em 3.800 GPUs Nvidia Grace Blackwell, em datacenters próprios na Europa.
Os pesos estão no Hugging Face. Além disso, o modelo pode ser usado pela API da Mistral, pelo OpenRouter, por serviços da Nvidia e pelo Microsoft Foundry. Na API, o preço é de US$ 0,70 por milhão de tokens de entrada, US$ 0,07 para entrada em cache e US$ 2,10 para saída.
A licença se chama Mistral Ecosystem Open-Weight e, segundo a empresa, é uma MIT modificada. O uso comercial é livre, com uma exceção. Quem vende o modelo como serviço precisa antes de uma licença comercial da Mistral. O TechCrunch chama o modelo de "código aberto". A Mistral, porém, fala em pesos abertos, termo mais preciso para essa licença.
Os números que a Mistral apresenta
No índice de agentes de programação da Artificial Analysis, o modelo final marcou 48%. Na prévia, eram 49,8%. A Mistral descreve o resultado como praticamente empatado com o GLM-5.3, rival chinês de pesos abertos, usando 47% menos tokens por tarefa. Segundo o TechCrunch, porém, a Mistral afirma que o modelo supera todos os outros modelos abertos nesse índice. É uma descrição mais forte que a da própria página de lançamento.
No Terminal-Bench 4.0, o modelo subiu de 28% na prévia para 41%. Em cibersegurança, a empresa informa 51% no índice de ciber da Artificial Analysis. Na prévia, a empresa dizia que o modelo estava entre os cinco primeiros desse índice. A página nova não informa a posição.
Na parte de proteção, a Mistral diz que o modelo recusa, em média, 96,6% dos pedidos maliciosos de ciber. Segundo a empresa, é a maior taxa que ela mediu entre modelos abertos. No teste B3, de resistência a ataques contra agentes, o índice passou de 93,3% na prévia para 97,1%.
A versão que continua fechada
Ao lado dos pesos, a Mistral oferece a parceiros corporativos, como a Orange Cyberdefense, acesso antecipado a uma variante especializada. Ela é voltada a testes de invasão, avaliação de vulnerabilidades e simulação de ataques. O acesso passa por verificação rigorosa e cláusulas contratuais. Além disso, os testes ficam restritos a sistemas próprios ou autorizados.
A empresa explica o cuidado. Nos testes, o modelo se recusou a atacar alvos reais sem informação prévia. Mesmo assim, a Mistral diz ver potencial de ajuda a ataques de verdade e afirma que está ajustando as proteções.
Ao TechCrunch, Pierre Stock, vice-presidente de Ciência da Mistral, defendeu os pesos abertos como um acesso que, por definição, não pode ser cortado. Sobre o risco de uso por criminosos, disse: "Não queremos espalhar medo". O presidente-executivo, Arthur Mensch, afirmou que a IA deve ser ferramenta de empoderamento, e não de domínio.
Nossa leitura
A estratégia é o oposto da que o Google adotou com o Gemini 4 Carbon, liberado primeiro só a equipes de segurança selecionadas. A Mistral aposta que empresas e governos europeus querem um modelo que ninguém possa desligar de fora. Esse argumento de soberania pesa num mercado dominado por empresas americanas e chinesas.
O ponto fraco é que pesos abertos não têm volta. Quem baixa o modelo pode ajustá-lo, e as recusas medidas pela empresa valem para o modelo como foi entregue. A própria Mistral reconhece o risco ao segurar a variante especializada. Casos como as falhas críticas no PHP achadas com IA mostram que esse tipo de capacidade já tem efeito prático.
O que ainda não sabemos
- Como os números se sustentam em testes independentes, fora das tabelas da empresa.
- Em que posição exata o modelo final fica no índice de ciber da Artificial Analysis.
- Quanto a variante especializada difere do modelo aberto e quando, ou se, ela sai do acesso restrito.
- Que equipamento é preciso para rodar um modelo desse tamanho fora da nuvem.
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