Espaço4 min de leitura

Pedra rosa do Saara é um dos meteoritos mais antigos de Marte

O Teghaza 001, encontrado em 2022 e com quase 800 gramas, foi alterado por água marciana há cerca de 4,1 bilhões de anos, segundo um estudo financiado pela NASA na revista Science. A rocha pode ter vindo das terras altas do sul de Marte, mas o ponto exato de origem nunca será conhecido.

Mapa colorido do relevo de Marte com círculos brancos marcando 13 locais no hemisfério sul
Imagem: NASA/JPL-Caltech/USGS

Uma pedra cor-de-rosa encontrada no deserto do Saara em 2022 é um pedaço de Marte e está entre os meteoritos marcianos mais antigos já achados na Terra. A conclusão vem de um estudo financiado pela NASA e publicado na quinta-feira (29/10) na revista científica Science. Segundo a agência, a rocha passou por alteração causada por água marciana há cerca de 4,1 bilhões de anos. Portanto, ela se formou antes disso.

Uma rocha de quase 800 gramas

O nome Teghaza 001 vem da planície de sal no Mali onde a pedra foi achada. Ela pesa quase 800 gramas. A NASA não informa quem a encontrou nem em que mês.

Pesquisadores da Universidade do Novo México já tinham identificado a rocha como marciana pela composição de oxigênio. À primeira vista, ela parecia um shergottito, o tipo mais comum de meteorito vindo de Marte. Segundo a NASA, existem cerca de 435 meteoritos marcianos conhecidos.

A autora principal do artigo, Yang Liu, do Laboratório de Propulsão a Jato (JPL) da NASA, quase deixou a amostra de lado. Mesmo assim, resolveu dar uma olhada. "Só quando começamos a olhar de perto percebemos que o meteorito é realmente único", disse Liu ao JPL.

Como a idade foi medida

Primeiro, a equipe encontrou cristais de zircão na rocha. Esse mineral guarda pistas sobre a formação de uma pedra e serve para datá-la com precisão. Depois, o laboratório de François Tissot, no Caltech (Instituto de Tecnologia da Califórnia), aplicou um método de datação por rubídio e estrôncio. A técnica mede esses elementos em grãos minerais isolados, direto na superfície da amostra. Para isso, bastou um fragmento menor que uma unha.

Segundo Tissot, o grupo é um dos poucos laboratórios do mundo capazes de fazer esse tipo de datação. Além disso, foi o primeiro a datar um meteorito marciano tão antigo, de acordo com ele.

Vale notar o que a data mede. Os 4,1 bilhões de anos marcam a alteração pela água, e a rocha se formou antes disso. A idade exata de formação, porém, não aparece no material divulgado.

Por que essa pedra importa

O Teghaza 001 mistura minerais ígneos, isto é, que nascem do magma ao esfriar. Segundo a NASA, eles mostram como a crosta de Marte se formou antes de ser alterada por água do subsolo. A composição de oxigênio, a textura e a química da rocha também apontam para um ciclo da água bem mais ativo no Marte primitivo.

"É nosso primeiro pedaço de crosta marciana de uma parte de Marte da qual nunca tivemos amostra", disse Lee Saper, segundo autor do estudo. Saper fez o trabalho como pesquisador de pós-doutorado no JPL e hoje está no Centro de Pesquisa Ames, da NASA. Para Saper, a pedra também pode guardar uma marca da atmosfera marciana na época em que o planeta perdia água. Um dos revisores do artigo chamou o meteorito de "Pedra de Roseta" de Marte, segundo Liu.

Segundo a NASA, o Teghaza 001 está entre os três meteoritos marcianos mais antigos já achados na Terra. Os outros dois citados são famosos. O ALH84001 tem idade semelhante, mas é feito quase todo de um único mineral. Já o Black Beauty é composto de pequenos fragmentos de rocha vulcânica. Curiosamente, o próprio comunicado diz que ele se formou há cerca de 2,1 bilhões de anos, bem menos que os outros dois.

De onde ela veio

Os cientistas compararam a rocha com dados da sonda Mars Reconnaissance Orbiter. Assim, acharam 13 locais em Marte com mineralogia e química parecidas. Eles ficam nas terras altas do hemisfério sul, uma região antiga e cheia de crateras. Um impacto lançou a pedra ao espaço até que ela caísse na Terra.

Nossa leitura: a NASA admite que a origem exata nunca será conhecida. Por isso, o mapa mostra candidatos, não o ponto de partida. Mesmo assim, ligar uma rocha a uma região de Marte, ainda que de forma aproximada, é raro.

O que ainda não sabemos

  • A idade exata de formação da rocha, que o comunicado não informa.
  • Qual dos 13 locais, se algum, é a origem real do meteorito.
  • Quem encontrou a pedra e como ela chegou aos laboratórios.
  • Os detalhes do estudo sobre a água da rocha, publicado em junho na Science Advances.

"Nós só arranhamos a superfície", disse Liu. Tissot espera que o método do Caltech sirva para datar outros meteoritos e, no futuro, amostras trazidas de outros planetas, luas e asteroides.

Leia também: Poeira fina de Marte gruda em tecidos de traje, mostra o Perseverance e NASA testa pá que pode levar helicóptero de Marte a até 18,7 km.

Fontes

Leia também