Perseverance mostra que a poeira mais fina de Marte gruda em tecidos de traje espacial
Durante 1.645 dias marcianos, o rover Perseverance mediu a poeira que ficou presa em amostras de materiais de traje espacial que leva a bordo. Parte das partículas é pequena o bastante para chegar aos pulmões e ao sangue. O estudo saiu na revista PNAS em 27/10 e pode orientar o projeto de trajes e habitats.

O rover Perseverance passou anos medindo a poeira que gruda em pedaços de traje espacial levados até Marte. Agora a NASA divulgou o resultado. Segundo a agência, parte das partículas presas é tão pequena que poderia entrar nos pulmões e chegar à corrente sanguínea de um astronauta. O estudo foi publicado nesta terça (27/10) na revista científica PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences).
Pedaços de traje a bordo desde 2020
O rover carrega cinco amostras de materiais de traje espacial. Cada uma tem cerca de 20 milímetros de lado. Elas ficam no alvo de calibração do SHERLOC, um instrumento no braço robótico do rover. Em 2020, antes do lançamento, o JPL listou os cinco materiais: o tecido em camadas da parte externa do traje, o Vectran das palmas das luvas, o Teflon, um Teflon com revestimento contra poeira e o policarbonato da viseira do capacete.
A ideia original era ver como esses materiais envelhecem sob a radiação de Marte e como resistem à poeira. Agora vem a segunda parte da resposta. Ao longo de 1.645 dias marcianos, outro instrumento, o PIXL, mediu a poeira acumulada nas amostras de Teflon e de Vectran desse alvo. O próprio alvo de calibração do PIXL, com Teflon e vidro basáltico, também entrou na conta.
O que o PIXL viu
O PIXL (sigla em inglês para instrumento planetário de litoquímica por raios X) detectou partículas finas, abaixo de 2,5 micrômetros. Também achou partículas ultrafinas, na casa de 100 nanômetros. Medições anteriores em Marte só distinguiam grãos de até cerca de 3 micrômetros, segundo a NASA. O comunicado não diz de qual missão vinham esses números antigos.
Há uma pequena diferença dentro do próprio texto da agência. Num trecho, as ultrafinas aparecem como "cerca de 100 nanômetros". Em outro, como partículas "de no máximo 100 nanômetros". Por isso, o tamanho exato do menor grão medido não fica claro.
Além disso, a eletricidade estática parece decidir o que gruda em quê. Grãos carregados aderem a materiais diferentes conforme o tamanho. Os mais finos continuaram presos mesmo depois de anos de deslocamentos e perfurações do rover. Polímeros orgânicos como o Teflon juntam poeira fina com facilidade, e alguns materiais seguram menos poeira que outros. No Vectran, os grãos tinham em média cerca de 2 micrômetros.
"As menores partículas ficam para trás", resumiu Scott VanBommel, cientista do Perseverance na Universidade Washington em St. Louis e autor principal do artigo. Segundo VanBommel, são justamente elas o maior desafio para os sistemas de suporte à vida.
Por que a poeira de Marte preocupa
A poeira marciana é menos abrasiva que a da Lua. Em compensação, é rica em enxofre, cloro e ferro, e tem mais sílica que a lunar. Ela também contém percloratos, compostos que podem atrapalhar a tireoide, e ferro reativo. Segundo a NASA, os cientistas avaliam que o risco à saúde depende da quantidade de poeira e do tempo de exposição.
Lindsay Hays, diretora interina da Divisão de Ciência Planetária da NASA, disse que o rover está dando a engenheiros e médicos de voo medições que eles podem usar. Já Katie Stack Morgan, cientista do projeto no JPL, lembrou que a missão principal do Perseverance é buscar sinais de vida microbiana antiga. Mesmo assim, o rover também foi pensado para ajudar a preparar a chegada de pessoas.
O que pode mudar no projeto de trajes e bases
Como alguns materiais seguram menos poeira, os dados podem orientar a escolha de tecidos e revestimentos de trajes. A NASA cita ainda duas soluções para bases. Uma é o "suitport": o traje fica preso do lado de fora do habitat, e o astronauta entra nele por dentro. A outra é a câmara de descompressão dupla. As duas reduziriam a poeira que chega ao espaço onde a tripulação vive. Os resultados também podem ajudar a definir limites de exposição à poeira dentro dos habitats.
Enquanto isso, a agência testa soluções parecidas para a Lua. Em março de 2025, um escudo eletrodinâmico contra poeira foi testado na superfície lunar. No Centro Espacial Johnson, em Houston, componentes de traje e ferramentas contra poeira passam por testes para o programa Artemis.
O que ainda não sabemos
O comunicado não compara diretamente quanto Teflon e Vectran acumularam, nem diz quanta poeira ficou presa. Também não informa em que dias marcianos as medições começaram e terminaram. Não está claro que nível de exposição seria perigoso para uma tripulação. Por fim, o título do artigo na PNAS não aparece nos textos da NASA.
Nossa leitura
O estudo não traz uma solução pronta, mas troca suposição por medida feita em Marte. Saber que os grãos mais finos resistem a anos de uso muda o foco: na nossa avaliação, limpar a superfície do traje não basta se o menor grão continua lá. Isso pesa a favor de soluções que mantêm o traje fora da área habitada.
Leia também: NASA testa pá que pode fazer helicópteros de Marte voarem mais longe e o que a NASA disse sobre as missões Artemis III e IV.
Fontes
- NASANASA's Perseverance Offers Clues to Protect Crews From Mars Dust
- NASA JPLNASA's Perseverance Offers Clues to Protect Crews from Mars Dust
- NASA PhotojournalNASA's Perseverance Views Dust at Neretva Vallis (PIA26816)
- NASA JPL (2020)NASA's Perseverance Rover Will Carry First Spacesuit Materials to Mars


