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Ford promete não vender a corretoras o jeito como você dirige

A montadora lançou uma "promessa de privacidade" e um site que explica como usa os dados dos carros. A garantia é estreita, porém. O aviso de privacidade da Ford na Califórnia marca dados de geolocalização como vendidos e compartilhados para marketing, sem dizer de onde vem essa localização.

Painel de um Ford Mustang Mach-E visto do banco de trás, com volante, tela vertical no centro e uma rua com carros estacionados à frente
Foto: Vauxford, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

A Ford apresentou nesta segunda-feira (2) o que chama de "promessa de privacidade". É um compromisso de proteger os dados dos carros e dar ao cliente controle sobre o que compartilha. Junto veio um site que explica como a montadora usa essas informações, segundo o TechCrunch. O anúncio sai dias depois de a General Motors aceitar pagar US$ 220 milhões num caso de venda de dados de motoristas.

A frase central da página é curta. A Ford diz que nunca vende a corretoras de dados (empresas que compram e revendem informações pessoais) os dados sobre como você dirige. Nas perguntas frequentes do site, a lista inclui também as seguradoras.

O que a Ford promete

A página "Our Privacy Promise" resume a ideia em três frases: privacidade como prioridade, conversa franca sobre os dados e escolhas nas mãos do motorista. Ela também avisa que as opções de privacidade dependem dos recursos que o cliente quer usar. A página não tem data, então a informação de que ela é nova vem do TechCrunch.

Kristin Jones, diretora de privacidade da Ford, entrou na empresa em 2024. Ao TechCrunch, explicou que os controles já existem há anos. Agora, a ideia é comunicá-los melhor, de olho nos carros da nova plataforma elétrica da marca. Segundo Jones, a empresa "não está nisso para tentar ganhar dinheiro com dados".

Jones citou ainda uma pesquisa com mil consumidores. Nela, 91% disseram que privacidade pesa na decisão. A Ford não divulgou detalhes do levantamento.

As perguntas frequentes da Ford trazem outros compromissos:

  • Polícia: a empresa só entrega dados com autorização do dono ou por processo legal válido. Para localização precisa, só aceita mandado judicial. A exceção são emergências, como sequestro de criança ou roubo de carro com o motorista dentro.
  • Câmera do BlueCruise: a câmera voltada para o motorista só fica ativa com a direção assistida ligada. As imagens não vão para a Ford automaticamente. Após certos acidentes ou quase acidentes, porém, uma única imagem pode ficar guardada no carro e ser retirada fisicamente.

Onde a promessa para

A garantia cobre dados de direção. Em contrapartida, o aviso de privacidade da Ford para a Califórnia, em vigor desde 1º de julho de 2026, mostra outra parte da história. Na tabela exigida pela lei californiana, a categoria "dados de geolocalização" aparece como vendida e compartilhada. A finalidade indicada é "marketing e publicidade".

A tabela, no entanto, não diz se essa localização é a do carro, a do celular ou a do site. Além disso, a localização precisa aparece em outro trecho como dado sensível, e ali o marketing não está entre os usos. Ou seja, o documento não permite afirmar que a Ford vende o trajeto dos carros. Mesmo assim, "não vendemos como você dirige" está longe de "não vendemos dados".

O aviso diz ainda que a Ford vendeu dados sobre itens de fábrica dos carros, ligados ao número do chassi. Entre os compradores estão empresas de leilão, seguradoras, concessionárias e financeiras. Em 2025, a montadora recebeu 1.454 pedidos de californianos para não ter dados vendidos. Atendeu 1.335, no todo ou em parte.

Por que agora

O pano de fundo é o caso da GM. Segundo o TechCrunch, a concorrente fechou na semana passada um acordo de US$ 220 milhões com procuradores estaduais. A acusação era de vender dados do programa Smart Driver às corretoras LexisNexis e Verisk, que os repassavam a seguradoras. A GM já tinha uma ordem da FTC, a agência de defesa do consumidor dos EUA, desde janeiro.

Há também uma novata usando privacidade como argumento de venda. A Slate Auto, startup bancada por Jeff Bezos, prepara uma picape elétrica sem modem. Assim, o carro não consegue enviar localização nem estilo de direção. Um porta-voz disse à revista Mobility Engineering Technology que os dados não serão vendidos. Na mesma reportagem, Thorin Klosowski, da EFF (organização de direitos digitais), elogiou a ideia. Ele lembrou, porém, que promessas assim nem sempre são cumpridas.

Nossa leitura

Explicar em linguagem simples o que o carro coleta é um avanço. Afinal, só 14% dizem entender totalmente o que o próprio carro registra, segundo dado citado pelo TechCrunch sem indicar a origem. Ainda assim, a promessa escolhe bem as palavras. Ela fala de dados de direção e de corretoras, exatamente o que derrubou a GM. A geolocalização usada em publicidade fica de fora.

O que ainda não sabemos

A Ford não informou se a promessa vale fora dos EUA, inclusive no Brasil. Também não disse se muda algum contrato atual com parceiros. Falta saber, por fim, se a geolocalização vendida para marketing inclui a posição do carro.

Leia também: GM pagará US$ 220 milhões em caso de venda de dados de motoristas e Turo passa a mostrar quais Teslas alugados têm FSD.

Fontes

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